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Como é difícil tirar as rodinhas

Por Sidnei Oliveira | 13 de julho de 2016


Ganhar a bicicleta era o principal sonho daquela criança. Foram muitos os momentos de expectativa em frente a vitrine da loja.

A felicidade sonhada, já estava nos planos dos pais há algum tempo, contudo, contrariando toda ansiedade do coração, a razão insistia em criar um momento especial para realizar o desejo da criança.

Aqueles pais viveram no tempo das “bolinhas de gude”, das pipas, dos jogos de “queimada” e de “pular corda”. Já estava distante o tempo em que a televisão era um instrumento que provocava disputas barulhentas entre as crianças e, algumas vezes, silenciosas entre os pais.

Eram dias em que desenhos, seriados, noticiários e novelas, colocavam pais e filhos em lados opostos.

Naqueles anos, poucas crianças podiam usufruir de um quarto individual, quanto mais de um brinquedo. Compartilhar era uma condição imposta pela realidade de famílias ainda numerosas.

Não causa nenhum espanto que hoje, os pais queiram ter apenas 1 ou 2 filhos e que se esforcem tanto, para adquirir imóveis que permitam acomodar seus filhos em quartos individuais.

Foram tempos de muitas limitações, por isso aqueles pais sabiam o valor de um brinquedo tão individual quanto a bicicleta, e tinham a intenção de valorizar cada momento de alegria.

Quanto o presente chegou, ficou evidente a dimensão do planejamento dos pais.

A bicicleta era moderna e tinha todos os acessórios possíveis. Capacete, bomba de ar, buzina, luzes de sinalização, amortecedores hidráulicos e principalmente, as indispensáveis rodinhas de segurança. Tudo para garantir que os momentos alegres não pudessem ser estragados por quedas e machucados.

A primeira volta que a criança deu na nova bicicleta, criou um daqueles momentos mágicos, com sorrisos em todos os rostos.

Sob o olhar atento dos pais, a criança pedalava e ganhava velocidade. Algumas vezes, ousava passar com a roda por cima de uma pedra, buscando novas emoções nos pequenos saltos.

Depois de alguns dias, a criança foi adquirindo uma relação intima com a nova companheira de alegrias, se libertando dos acessórios mais pesados e se aventurando por caminhos mais sinuosos.

O único acessório que mantinha em sua bicicleta eram as rodinhas de segurança. Elas permitiam uma série de manobras emocionantes, sem que isso representasse um tombo.

Os pais tentaram tirar as rodinhas, mas não tiveram sucesso, pois a criança já estava tão acostumada, que não aceitava a retirada do equipamento. Quando as rodinhas eram retiradas, a criança simplesmente abandonava a bicicleta.

Com o tempo, a criança cresceu, e seus pais, sempre preocupados em proporcionar grandes alegrias para ela, foram substituindo as rodinhas, por modelos maiores e mais resistentes, afinal, as novas aventuras era muito mais desafiadoras e exigiam cada vez mais proteção.

Há alguma coisa neste comportamento que transforma esta realidade em algo estranho, mas aparentemente aceitável e natural.

Não podemos condenar a criança, afinal, todos nós gostamos de rodinhas nos protegendo, facilitando nossos caminhos e nossos desafios.

Também é compreensível a atitude dos pais, que sempre irão se preocupar em proteger nossas alegrias. Eles nunca terão forças para tirarem as rodinhas.

...as rodinhas limitam nossos movimentos, nossas possibilidades de alegrias...

Quem já aprendeu a andar de bicicleta sabe que somente uma decisão pessoal pode retirar as rodinhas.

Este é o desafio das gerações atuais.

Alguns precisam assumir uma postura menos acomodada e mais proativa em relação as suas próprias escolhas, afinal as rodinhas limitam nossos movimentos, nossas possibilidades de alegrias.

Outros, precisam aprender a confiar no talento pessoal e na força que os erros acrescentam ao crescimento pessoal, porque mesmo não andando de bicicleta, tombos e machucados acontecerão.

A única ajuda que podemos desejar é ter o apoio de alguém segurando no banco por alguns instantes antes da grande aventura.

Agora é com você!


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Mentor, escritor e consultor de carreira. Autor de vários livros sobre Liderança e dos best-sellers da série Geração Y. Formado em Comunicação e Administração de Empresas. Atualmente presidente da Escola de Mentores e vice-presidente do Instituto Atlantis de preservação ambiental. É também articulista e colunista na Exame.com. Saiba mais...